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A arte da correção fraterna

No capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus lemos vários ensinamentos de Jesus respeitantes à vida da sua comunidade, a comunidade cristã. O evangelista recolhe-os e reúne-os aqui para ensinar aos cristãos orientações numa hora já marcada pelo esforço da vida eclesial entre irmãos e irmãs em conflito, pela rivalidade e patologias de relações entre autoridade e crentes. A mensagem central desta página indica a misericórdia como decisiva, absolutamente necessária nas relações entre irmãos e irmãs.

Os poucos versículos proclamados neste XXIII Domingo visam indicar a necessidade da reconciliação seja no viver quotidiano seja na oração dirigida ao Senhor vivente. Eis então a primeira palavra de Jesus: «Se o teu irmão peca [contra ti], vai e adverte-o entre tu e ele sós; se se escutar, terás ganho o teu irmão». Na verdade esta frase de Jesus é atestada nos manuscritos de duas maneiras: uma breve, que fala de um irmão que peca (isto é, que comete um pecado contra as exigências cristãs), e outra longa, que especifica «contra ti», supondo uma ofensa pessoal.

No primeiro caso a diretiva seria eclesial, e portanto tratar-se-ia de um comportamento preciso a viver coo Igreja; no segundo caso Jesus referir-se-ia à reconciliação fraterna em caso de dissensão ou ofensa. A tradução oficial opta por esta segunda leitura, mas quer uma quer outra são acentuações diferentes de uma única verdade, porque o pecado entrevisto é, em todo o caso, um pecado grave que impede a comunhão fraterna.

Jesus pede a correção e a reconciliação entre quantos estão em conflito, entre o ofendido e o ofensor, mas pede-o também a nível comunitário, quando um membro da comunidade, mediante o seu pecado, contamina todo o corpo, torna-se objeto de escândalo, de obstáculo à vida cristã, que é e deve ser sempre comunhão entre diversidade reconciliada e, portanto, sinfónica. A comunhão exige um sério compromisso, igualmente um esforço, e é questão de se ser responsáveis e guardiões uns dos outros.

Quem cumpre a correção deve ter o coração de Jesus que perdoa, não despreza e não se enche de preconceitos. Deve fazê-lo com o espírito do bom pastor que, na parábola narrada logo antes por Jesus, vai procurar a ovelha que se perdeu

Tome-se atenção em não ler nestas palavras de Jesus um procedimento jurídico cristão, a observar como uma lei. É verdade que Jesus se inspira em quanto se lê no livro do Levítico: «Não odiarás o teu próximo no teu coração; mas repreende o teu compatriota para não caíres em pecado por causa dele» (19,17; cf. também Sir 19, 13-17). Mas não dá uma nova lei capaz de resolver os conflitos e eliminar os pecados, mas antes pede que no meio das tensões, dos conflitos, das contendas e das ofensas que inevitavelmente ocorrem em toda a comunidade permaneça o desejo de comunhão, a vontade de edificação comum, a responsabilidade inteligente de cada em relação a todos. Quando acontece o pecado grave e manifesto, na comunidade cristã é preciso trabalhar com criatividade, sabedoria, paciência e, sobretudo, misericórdia.

O que deve então fazer o cristão maduro? Advertir o pecador, certo, mas com muita caridade. Adverti-lo na hora oportuna, adverti-lo com humildade e clareza, adverti-lo cobrindo a sua vergonha, não a desvelando aos outros, portanto a sós. Quem cumpre a correção deve ter o coração de Jesus que perdoa, não despreza e não se enche de preconceitos. Deve fazê-lo com o espírito do bom pastor que, na parábola narrada logo antes por Jesus, vai procurar a ovelha que se perdeu (cf. Mateus 18, 12-14). Deve fazê-lo não porque a lei foi infringida, mas porque quem pecou fez mal a si mesmo, escolheu a via da morte e não a da vida. Em todo o caso, quem corrige não pode pensar que deve erradicar a cizânia e salvar a boa semente! Deve tentar todo o possível para que quem se perdeu reencontre a estrada da vida e quem ofendeu o irmão reencontre o caminho da reconciliação. Jesus requer simplesmente isto, e no entanto constatamos quanto é difícil nas comunidades cristãs este simples passo para a comunhão. Parece que a arte de advertir e corrigir o outro, arte certamente delicada e difícil, não é possível e em vez disso dá lugar à indiferença da parte de quem está demasiado preocupado em si mesmo e na sua própria salvação para pensar nos outros.

Mas no Evangelho testemunha-se também a possibilidade que a correção fraterna tenha um resultado negativo: o irmão que pecou pode não querer ser corrigido nem muito menos mudar de atitude, convertendo-se do caminho empreendido em contraposição com o Evangelho. Que fazer neste caso? Aceitando sem rancor a recusa oposta do irmão, será preciso procurar uma via posterior relativamente a esse percurso, talvez recorrendo à ajuda de outros irmãos e irmãs da comunidade: «Se não te escutar, toma então contigo uma ou duas pessoas, para que qualquer coisa seja resolvida sobre a palavra de duas ou três testemunhas» (Deuteronómio 19, 15). Mesmo nesta opção não se lega um procedimento jurídico rígido da parte de Jesus. Colha-se, em vez disso, o espírito de tais injunções, que querem salvar o irmão ou a irmã, não tornar pura a comunidade, percorrendo caminhos de exclusão. Pedir a ajuda de outros irmãos significa procurar a terceira pessoa que ajude a reconciliação quando não há possibilidade de acordo no face a face, significa procurar a palavra autorizada de outros, que ajudem a discernir melhor qual será a estrada da conversão.

Se, depois, também esta via se torna insuficiente, então – diz Jesus – pode pedir-se à assembleia, à Igreja, para intervir para o que o conflito seja resolvido e o apelo à conversão seja expresso com a máxima autoridade. Mas inclusive esta última tentativa pode não ter sucesso, e então? Não se deve esquecer que em todo o caso a assembleia não é um tribunal de última instância, mas uma ocasião para escutar a voz dos irmãos e das irmãs no corpo de Cristo, a Igreja: «Se não escutarem nem a comunidade, a Igreja, seja para ti como o pagão e o publicano». Esta atitude, assumida por quem foi ofendido ou viu o pecado, corrigiu e não foi escutado, não é a excomunhão, palavra usada com aceções ou interpretações fantasiosas. Não! Jesus diz que, se forem esgotadas todas as tentativas de correção fraterna e de reconciliação, então é preciso tomar as distâncias para conservar a paz e não tornar mau o irmão, é preciso considerá-lo como se pertencesse aos gentios (um pagão) ou um publicano. Isto é, alguém que Jesus amava e estava disposto a encontrar (cf. Mateus 9,11; 11,19), um doente que precisa de ser protegido, um pecador que precisa de perdão.

O “salvamento” de um irmão, de uma irmã, é obra delicada, esforçada, que requer paciência e deve ser inspirada só pela misericórdia. Porque todos somos débeis, todos caímos e precisamos de ser ajudados e perdoados: na comunidade cristã não há puros que ajudam os impuros ou sãos que curam os doentes! Mais cedo ou mais tarde conhecemos o pecado e precisamos de uma ajuda inteligente e verdadeiramente misericordiosa, a ajuda que virá de Deus

A este ponto o cristão assume sobre si duas responsabilidades, a de perdoar o pecado ou de não o perdoar: «Tudo aquilo que ligardes na Terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na Terra será desligado no Céu». O poder de ligar e desligar, conferido por Jesus a Pedro (cf. Mateus 16,19), é dado também a cada cristão a fim de que exercite o ministério da reconciliação, sempre e com autoridade. Este poder é dado aos discípulos como o o deu o próprio Jesus, «não para julgar mas para salvar o mundo» (cf. João 3,17). Na sua Regra, S. Bento legisla sobre estas patologias vividas às vezes pela comunidade e sabe que, esgotada toda a possibilidade de correção de um irmão que continuar a permanecer no pecado grave, só resta orar, remetendo-o à misericórdia do Senhor e ao poder da graça, o amor que não é merecido. Mesmo a excomunhão monástica prevista por Bento para o irmão pecador que não se arrepende é só medicamento: exclusão da mesa e da oração comum, mas nunca exclusão total do irmão.

O “salvamento” de um irmão, de uma irmã, é obra delicada, esforçada, que requer paciência e deve ser inspirada só pela misericórdia. Porque todos somos débeis, todos caímos e precisamos de ser ajudados e perdoados: na comunidade cristã não há puros que ajudam os impuros ou sãos que curam os doentes! Mais cedo ou mais tarde conhecemos o pecado e precisamos de uma ajuda inteligente e verdadeiramente misericordiosa, a ajuda que virá de Deus. É preciso, com efeito, salvar-se juntos, como escreve ainda Bento na Regra: «Cristo nos conduza todos juntos à vida eterna». Ninguém se salva só: que salvação seria essa que diz respeito só a mim mesmo, sem os outros? Que Reino de Deus seria esse em que se entra sozinho enquanto os outros ficam de fora? Que solidão, que tristeza…

Precisamente por isso Jesus pede aos seus discípulos que, quando orarem, estejam em comunhão. Não basta orar uns aos lado dos outros, justapostos, não basta orar com as mesmas fórmulas ou executar os mesmos gestos. Para que a oração seja autêntica e a liturgia grata por Deus, é preciso sobretudo um acordo na caridade, ser comunhão. Então a oração é acolhida, porque onde há sinfonia dos corações, aí está o Espírito Santo, o dom dos dons, sempre concedido a quem o invoca (cf. Lucas 11,13). E bastam poucos, dois ou três, que oram na fé de Cristo Senhor, para que o próprio Cristo esteja presente. Diziam os rabinos: «Quando dois ou três estão juntos e entre eles ressoam as palavras da Torá, então a “Shekinah”, a Presença de Deus, está no meio deles». Analogamente, Jesus diz que, quando também só dois ou três irmãos ou irmãos se reúnem no seu Nome, na caridade recíproca, então Ele está presente. Sim, Jesus está presente onde quer que seja que se viva o amor, a caridade entre os irmãos, entre as irmãs.

Enzo Bianchi
Prior do mosteiro de Bose, Itália
In “Monastero di Bose”
Trad.: SNPC
Publicado em 10.09.2017